30 de mar de 2011

o dia em que virei adulta

            Depois de tanto tempo retorno para contar que - como me disse meu priminho de sete anos no domingo – agora sou adulta. Foi uma cena meio cômica acordar perto do meio dia, com os cabelos desgrenhados (e bota desgrenhados nisso), dar de cara com o moleque jogando vídeo game na sala e ouvir isso: Bruna, agora você já é adulta, né?!
            O adulta que ele quis dizer, na sua inocência de criança, é que agora eu sou finalmente uma pessoa formada. Me formai, ao contrário do que diziam algumas más línguas. Mais alguns dias e terei até um diploma, pra pesar destas más línguas, que na verdade é uma só. Mas deixando esta má língua de lado, lembro de uma outra coisa má, e que não era apenas uma língua.
            Pensem vocês que fui escolhida para ser oradora da turma e que, com todas as atribuições que esta função exigia, lá fui eu escrever meu pequeno discurso (5 minutos no máximo). Me dei ao trabalho de cronometrar meu tempo de leitura e cheguei à conclusão de que era capaz de ler uma página e meia neste tempo. O tamanho do discurso eu já tinha, faltava o recheio. E como foi penoso parir aquela desgraça. Quatro meses desde o fim das aulas, desde que eu me propus a dedicar-me exclusivamente ao parto do meu discurso. Depois que fiquei sabendo que alguns professores depositavam grandes expectativas sobre meu pobre discurso, as dores do parto aumentaram. A formatura estava marcada para o sábado, a entrega do discurso para a quinta feira anterior. Pois eis que na madrugada de terça para quarta acordo com as ideias fazendo a maior algazarra dentro da minha cabeça. Fiz um pequeno esboço.
            Quarta-feira fui atrás de algumas coisas que faltavam ser resolvidas, e o esboço do meu discurso lá... E as ideias que me haviam perturbado durante a noite haviam sumido. Quinta feira pela manhã eis que elas resolvem retornar. Consegui terminar o parto do meu discurso. Duas páginas, mais ou menos sete minutos. Estava perfeito. Não aqueeeeeela maravilha, mas pra algo parido na ultima hora, estava perfeito.
            Na manhã seguinte, o telefone toca e ao atender, a pessoa do outro lado se identifica como sendo da universidade. Dizia ele que meu discurso havia sido classificado como agressivo em demasia, e que algumas partes teriam que ser omitidas, para não ferir a imagem da universidade... Em outras palavras: FUI CENSURADA! Quase não consegui acreditar! (tá, confesso que até fiz de propósito só pra ver se eles teriam a capacidade de me censurar. E eles tiveram.)  1001 ideias me passaram pela cabeça, de parir um novo discurso mais agressivo às pressas a fazer 5 minutos de silêncio. Mas na hora de discursar, optei pela forma mais direta de me cobrar. Anunciei a todos a censura e li o discurso censurado mesmo. Dizem os que estavam na plateia que, se pudesse, o vice-reitor me pularia no pescoço. Mas ele não podia. Teve que ficar quieto e ouvir o que eu, uma reles licenciadazinha em História tinha a dizer. Poderia ter feito mais, eu admito. Mas para aqueles que se consideram senhores de tudo e de todos, foi um grande tombo serem acusados de censura...  que coisa feia, não... Mas depois de quatro anos vendo, ouvindo e presenciando tantas coisas podres, foi o mínimo que eu poderia ter feito. E me orgulho de ter feito.

No próximo episódio conto mais sobre o dia em que virei adulta... e de como foi divertido

Um comentário:

  1. cara bruna

    não pude ir na sua formatura. mas não pense que não te amo: nem na minha eu fui, porque simplesmente não a fiz, já que odeio formaturas. amo você e amo todos os podres presentes. bem, estava em greve de fome, uma sem teto, sem grana, sem carro, enferma. parabéns, mesmo assim. adorei ler isso, dona adulta. que apodreçam as línguas afiadas que te subestimaram. e mais: adorei saber de tudo isso que li. sugiro que publique o discurso e registre e perpetue esse momento, minha cara oradora. só podia ser mesmo você para falar em nome da turma. acompanhei todo o seu processo de tornar-se adulta e te admiro, minha metralhadora querida. orgulho de ti, enorme orgulho, minha amiga, minha irmã de coração. tenha uma vida maldita enquanto historiadora. permaneça essa criatura censurável, corajosa, maravilhosa, inteligente, esperta, imaginativa. bote a boca e o corpo todo no mundo. mais uma coisa:
    senta na minha cara... e remexe? hahaha amo, amo, amo você, até o fim dos dias. até breve, espero. um beijo da fabita, tua fã incondicional.

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